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Entrelinhas

Longa-metragem de ficção sobre a ditadura militar no Paraná livremente inspirado em fatos reais.
Duração: 100 minutos
Direção: Guto Pasko
Etapa: Pré-produção

Distribuição: Elo Company


Resumo do enredo

Ano de 1971, Ana Beatriz (Bia) tem 17 anos e estuda na 2ª. Série do Colegial. Ela trabalha num escritório de arquitetura e tem seus movimentos seguidos pelos militares. Em uma manhã fria de Curitiba, Bia sai para seu primeiro dia de trabalho num novo emprego em uma estatal. Ao chegar ao departamento de Recursos Humanos da empresa é surpreendida por policiais da DOPS, que a levam detida sob a acusação de ser colaboradora de estudantes subversivos ligados a UNE e ao DCE da Universidade Federal do Paraná.

Depois de a torturarem brutalmente na sede da DOPS e no Quartel General do Exército em Curitiba por três dias, ela é levada com outro jovem para Foz do Iguaçu sob suspeita de terem conexões com uma célula do grupo de guerrilha armada VAR-Palmares, que luta contra o regime.

Após resistir a dez dias de torturas sem que os militares comprovassem o envolvimento dela com as acusações, Bia é trazida de volta à Curitiba toda estraçalhada e entregue aos pais por um oficial do exército que, ao devolvê-la à família, simplesmente diz: “Desculpem, foi um engano”.

Apresentação e justificativa

O cinema nacional retratou até hoje (e muito bem) histórias de pessoas que tinham alguma importância ou envolvimento direto histórico-politico contra o regime militar, que eram lideranças ou personalidades na ocasião, e “Entrelinhas” dá protagonismo para uma história real de personagem absolutamente anônima.

Livremente inspirado em fatos reais ocorridos com Ana Beatriz Franco Fortes, esse será um filme com várias camadas, mas pode ser definido como um filme sobre abuso de poder, tendo como pano de fundo a perseguição, violência e injustiça praticados contra uma adolescente e sua impotência diante do sistema no período da ditadura militar.

É um filme sobre os brasileiros “anônimos” de ontem e de hoje – que foram e continuam sendo vítimas da violência e repressão.

Um filme sobre o passado, mas também sobre o nosso presente, pois essa ferida ainda continua aberta nas entranhas do país.

A personagem Beatriz dá voz também ao momento atual do Brasil, em que atravessamos uma situação de intolerância político-social novamente, inclusive com alguns setores da sociedade pedindo o retorno da ditadura militar.

“Entrelinhas” busca a visão da testemunha ocular dos fatos, com um olhar incômodo, de dentro das celas de torturas, para fora, colocando o espectador na situação da protagonista, fazendo o público sentir-se partícipe e testemunha de tudo.

Em tempo, vale ressaltar que não se se pretende um filme tendencioso ou panfletário, que defenda alguma ideologia. Não há aqui um julgamento de valor, não se pretende erguer bandeiras de nenhum dos lados, apenas reproduzir o que aconteceu com a personagem real inspiradora da história, de forma mais fiel possível, a partir dos seus relatos pessoais na fase de pesquisa para o roteiro.

Entender o processo de democratização vai além de questões partidárias e ideológicas. É saber sobre nossa própria identidade brasileira. É preciso resgatar e refletir sobre como esse período contribuiu e influência na nossa sociedade de hoje, política e socialmente. E o cinema sempre foi um instrumento potente para isso.

Contextualização histórica e das personagens

A história de “Entrelinhas” se passa no ano de 1971. Nesse momento o presidente do Brasil era o General Médici e os cinco anos que ele comandou o país, são historicamente conhecidos como os mais violentos do regime. Foi no inicio dos anos 70 que os militares apertaram o cerco com perseguições mais duras, com desaparecidos, exilados e muitas mortes. A ordem era exterminar os grupos de resistência e guerrilhas, fossem urbanos ou rurais.

Vivíamos o chamado “Milagre Econômico” com o PIB supostamente em franco crescimento anual e grandes obras de infraestrutura, fatos que eram propagandeados exaustivamente pelo governo, até como forma de criar uma cortina de fumaça aos reais problemas do país, sobre tudo, mascarar a repressão violenta que impunham no Brasil.

Era a fase da frase que se eternizou na memória histórica do país: “Brasil. Ame-o ou deixe-o”. Muitos não escolheram isso, mas foram obrigados a deixa-lo.

Neste momento, a nossa personagem real inspiradora para o filme, Ana Beatriz Franco Fortes, é uma adolescente de 17 anos, estudante secundarista de uma escola pública em Curitiba. Ela tem uma irmã um pouco mais velha, Elizabeth Franco Fortes, que está cumprindo pena de 18 meses no presídio do Ahú em Curitiba porque fazia parte do movimento estudantil paranaense.

Elizabeth Franco Fortes, a Beth, foi presa num congresso clandestino dos estudantes realizado em dezembro de 1969 na Chácara do Alemão em Curitiba. Os militares descobriram que seria realizado esse congresso “ilegal” e desencadeou-se a “Operação Pente Fino”, que prendeu 42 estudantes, entre eles a irmã de Beatriz e Vitório Sorotiuk, então presidente do Diretório Central dos Estudantes – DCE da Universidade Federal do Paraná e um dos organizadores do congresso estudantil “ilegal”. Elizabeth também fazia parte da diretoria do DCE da UFPR. Em função disso ambos foram presos pelo regime. Vitório era estudante de Direito e Elizabeth de Jornalismo.

Vitório Sorotiuk era a principal liderança estudantil do Estado do Paraná desde 1968, quando liderou um movimento contra a implantação do modelo MEC-USAID de ensino, que previa a implantação de cobranças de mensalidades nas universidades federais brasileiras, inspirados no sistema americano. A Universidade Federal do Paraná seria a primeira a ter o sistema de cobrança implantado, serviria de piloto, e a escolha do Paraná se deu ao fato de que o Ministro da Educação do regime naquele momento era o então Reitor da UFPR, professor Suplicy.

Um dos atos de insubordinação estudantil mais conhecidos dessa época foi à derrubada do busto do Reitor e Ministro que ficava na entrada da Universidade Federal. O mesmo foi arrastado pelos estudantes pelas ruas do centro da cidade, sob a liderança de Vitório Sorotiuk.

Dos 42 estudantes presos na “Operação Pente Fino”, 15 foram condenados. Vitório Sorotiuk teve que cumprir 2,5 anos de prisão e Elizabeth Franco Fortes 1,8 anos.

E é nesse momento em que Elizabeth Franco Fortes está presa que começa a nossa história com Ana Beatriz Franco Fortes, a Beatriz, personagem protagonista do longa-metragem “Entrelinhas”.

Como a irmã mais velha está presa e as duas eram muito apegadas, ela vai todo domingo visitar Elizabeth no presídio do Ahú. Os militares e o DOPS de Curitiba continuam na caça de outras lideranças estudantis e desconfiam das constantes visitas de Beatriz ao presidio e decidem monitorar os passos dela. Ao fotografarem a rotina cotidiana da garota, percebem que ela sempre circulava pela Universidade Federal, mesmo ainda não sendo uma universitária e deduzem que ela possa estar servindo de pombo-correio entre as lideranças presas e os estudantes do lado de fora.

Passam então a prestar mais atenção nos movimentos de Beatriz e percebem que na sua rotina, além da escola, visitas semanais ao presídio, ela também faz estágio num escritório de arquitetura. Mas o que chama ainda mais atenção dos militares e do DOPS é que toda semana ela, e sempre nas segundas-feiras, vai numa mesma agência bancaria no centro de Curitiba do então Banco do Estado do Paraná – BANESTADO.

Eles desconfiam que as operações financeiras que Beatriz faz sejam depósitos de dinheiro do movimento estudantil “subversivo” e decidem que era preciso interroga-la para tirar a história a limpo.

De uma hora para outra, surge no colégio em que ela estuda uma equipe dos Recursos Humanos de uma estatal, a SANEPAR – Cia de Água e Saneamento do Paraná, oferecendo oportunidades de estágio para jovens estudantes e o critério de seleção seria pelas boas notas.

E evidentemente, Beatriz foi à escolhida naquele colégio. A família ficou toda empolgada, pois estava ali uma oportunidade de ser futuramente efetivada na empresa e ter a tão sonhada estabilidade garantida desde cedo, pois as regras de funcionalismo público naquele momento eram outras e uma jovem estagiária poderia sim vir a ser efetivada através de concursos internos depois. Mais tarde ficou constatado que tudo não passava de uma armação para ficar mais fácil de interrogarem Beatriz, o que aconteceu logo no primeiro dia de trabalho dela na Estatal.

Quando ela chegou à Estatal, oficiais do DOPS de Curitiba e do Quartel General do Exército já aguardavam por ela para interrogatório ali mesmo. Portanto, o governo do estado do Paraná estava ciente do fato e colaborava com isso. Durante a conversa com Beatriz na Estatal, os militares revistam a mochila escolar dela e encontram escondida no meio de um livro uma carta endereçada a outro estudante, Elias.

Os policiais e militares desconfiam que aquela carta saiu do presidio do Ahú numa das visitas que ela fez por lá, o que confirmaria a suspeita do DOPS que ela estava servindo de pombo-correio, mas ela negava toda e qualquer suspeita.

Beatriz se nega também a dizer quem é o destinatário da carta, ou melhor, afirma categoricamente não saber de quem se trata e é então levada dali direto para a Delegacia do DOPS.

No mesmo dia os policiais do DOPS saem à caça de Elias e prendem o jovem na Reitoria da UFPR e o levam até a delegacia e fazem acareação com os dois. Mas ela continua negando conhece-lo.

Da delegacia do DOPS os dois são transferidos no mesmo dia para o Quartel General do Exército em Curitiba, onde começam a ser torturados. Depois de três dias de torturas ali, o rapaz confessa que faz parte de um grupo de guerrilha armada contra o regime militar que se instalou na região de Foz do Iguaçu, no oeste do estado. Trata-se de uma célula da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares – VAR Palmares.

Sabia-se que uma das atividades da VAR-Palmares eram assaltos a bancos para levantar dinheiro para financiar o movimento de resistência. Qual foi então a dedução lógica que os militares fizeram: “se o rapaz faz parte da VAR-Palmares, Beatriz também deve fazer e o dinheiro que ela sempre deposita no banco, vem daí”. Ou seja, automaticamente deduziram que ela também era integrante da guerrilha.

Ela continuava negando qualquer participação e alegava que o dinheiro era do então chefe dela, o arquiteto dono da empresa onde ela fazia estágio.

Os militares decidem então levar os dois para Foz do Iguaçu para tentar chegar aos demais integrantes da VAR-Palmares na região. Enfiaram os dois num avião da aeronáutica e quando a aeronave chega a Foz do Iguaçu, começa a sobrevoar as Cataratas do Iguaçu de forma circular e os dois jovens são pendurados de ponta cabeça do lado de fora da aeronave, segurados pelas pernas, sob a ameaça de que serão jogados nas cataratas se não confessarem o resto que sabem.

O garoto abre o bico de vez e entrega todos os membros da célula, mas Beatriz mantém se firme e forte e os militares não conseguem arrancar nada dela com essa estratégia de tortura psicológica. Então recolhem os dois novamente no avião e pousam, levando-os para o Batalhão de Fronteira do Exército em Foz do Iguaçu.

O Batalhão de Fronteiras do Exército Brasileiro de Foz do Iguaçu. Vale lembrar que em meados de 1970 entra em curso a Operação Condor, uma aliança político-militar entre as ditaturas da América Latina, com a conivência / apoio dos Estados Unidos, que tinha por objetivo aniquilar os movimentos de resistência, principalmente os considerados comunistas, em especial no Cone Sul, e o Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu, para onde Beatriz foi levada, era também usado para as atividades fins da Operação Condor.

Lá, no Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu, Beatriz e o outro jovem, Elias, continuam sendo brutalmente torturados por mais 07 dias. O garoto não resistiu e morreu nas torturas. Após um Major ficar sabendo desse fato, Beatriz é solta por ordens superiores sem que nada fosse efetivamente comprovado contra ela.

Beatriz é então trazida de volta para Curitiba e entregue para família por um Tenente do Exército Brasileiro, toda estraçalhada, que ao deixa-la na casa dos pais, simplesmente diz: “Desculpem, foi um engano”!!!

Sobre a VAR-Palmares

Foi uma organização política armada brasileira de extrema esquerda, que combateu a ditadura militar brasileira (1964-1985) utilizando-se de tática de guerrilha urbana, visando à instauração de um regime comunista no Brasil.

Surgiu em julho de 1969, como resultado da fusão do Comando de Libertação Nacional (COLINA) com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) de Carlos Lamarca. Seu nome era uma homenagem ao maior quilombo da história da escravidão.

Sua primeira direção foi composta por Carlos Lamarca, Cláudio Ribeiro, Juares Guimarães de Brito, Maria do Carmo Brito, Antonio Roberto Espinosa, Carlos Alberto Soares de Freitas e Carlos Franklin Paixão de Araújo (ex-marido da presidente Dilma Rousseff e pai de sua filha Paula). Quando aconteceu esse episódio com Ana Beatriz Franco Fortes, Dilma Rousseff estava presa e também sendo torturada em Belo Horizonte, por isso o marido dela comandava aquela célula, da qual ela era líder.

A célula da VAR-Palmares que existia na região de Foz do Iguaçu, nasceu no município de Nova Aurora, também ali na região oeste do estado. Essa célula era denominada de Comando Territorial da VAR-Palmares em Nova Aurora e estava subordinado ao Comando Regional de Porto Alegre, mas quem fazia a cooptação de novos membros e dava treinamentos de guerrilhas para os paranaenses era um casal de Caxias do Sul, que organizava as reuniões e atividades sempre numa estrada rural chamada de Anta Gorda, próxima da fazenda que abrigava o grupo.


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