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Matéria Publicada no Caderno G do Jornal Gazeta do Povo em 04.12.15.

Imigrante ucraniano que se tornou estrela de cinema aos 96 anos conta à Gazeta do Povo o que sentiu ao retornar à pátria depois de décadas no documentário “Iván”.

A ordem em que Iván Bojko, de 96 anos, mantém sua casa e oficina de artesanato, sem falar na aparência pessoal, denunciam um traço da personalidade do leste europeu. E ajudam a entender a indignação com que ele reage no documentário “Iván”, em cartaz na cidade, quando retorna à terra natal e encontra ruas enlameadas e roças destruídas.

“Me faz muito mal”, confessa o refugiado da Segunda Guerra, naturalizado brasileiro, que mora no bairro Bigorrilho.

“Tinha dois calmantes no bolso, e tomei, mas não adiantou. Minhas pernas tremiam”, diz Iván Bojko,retratado no documentário “Iván”, sobre a chegada à casa da infância.

Assistir ao filme dirigido e idealizado pelo descendente de imigrantes ucranianos Guto Pasko é uma travessia por um vale das lágrimas. A partir do momento em que Iván recebe, diante das câmeras, a passagem para retornar ao vilarejo de Konyukhy, no oeste da Ucrânia, depois de 68 anos de exílio, passando por cada parada em que encontra vizinhos e amigos de infância, até o doído e longo abraço na irmã que não via desde os 11 anos dela e 20 dele, são várias caixas de lenço.

A característica ordeira, metódica, talvez um pouco autoritária desse senhor encantador transparece no percurso da viagem, que durou cerca de 20 dias.

O trajeto foi filmado o tempo todo pela equipe, para não perder nada. Dentro do ônibus que levava o grupo à Ucrânia profunda, Iván ia sentado na ponta da poltrona, segurando um mapa da região que ele mesmo fez dois dias após saber que retornaria a seu país.

Na conversa com a Gazeta, ele rememorou os minutos antes de chegar à antiga vila: as pernas tremiam, os olhos não aceitavam a desolação da paisagem.

Em sua imaginação, a Ucrânia era uma lavoura bem cuidada, onde o pai dava duro para construir a casa onde moravam e o abrigo dos animais. “A vila era como uma cidade. Todo mundo ajudava, arrumava as ruas. Agora não tem nem homens”, lamenta. Os efeitos da ocupação alemã e soviética ficaram patentes da janela da condução.

Quando se ofereceu para assumir o lugar da irmã, convocada a aderir aos campos de trabalho forçado na Alemanha pelos nazistas, em 1942, Iván nem se despediu da família. Depois foram seis anos em Hamelin e então o exílio no Brasil, onde foi recebido pela vasta comunidade ucraniana. Se voltasse aos domínios da ex-URSS, poderia ser executado.

Por isso, a primeira coisa que pediu ao descer do ônibus foi ver onde os pais estavam enterrados. “Quando me falaram que ninguém sabia o lugar exato, comecei a me sentir mal”, conta. Foram três calmantes antes de entrar na casa, que ele não acreditava ser o ninho de sua infância, tamanho abandono e ruína. No filme, fotografias antigas deixadas nas paredes são cobertas como o áudio de Iván, inconsolável: “Que se aconteceu, meu pai? Fala comigo”, diz.

“Eu chamei pela mãe, pelo pai, e ninguém veio”, conta à reportagem, revelando uma alma poética afinada com o hobby a que se dedica desde os anos 1960: a construção de ‘banduras’, instrumento típico ucraniano, similar à harpa – em sua oficina, cuida delas com o máximo de capricho.

A morte da mãe

O clímax do documentário de Guto Pasko sobre o Iván pode ser considerado a entrada na antiga casa, onde o protagonista não se conforma com o abandono. Mas o extravasamento de emoção não amortece para a revelação seguinte sobre como sua mãe morreu. Nenhuma ficção seria tão cruel com o espectador.

“Iván”

Documentário está em cartaz nas salas do Água Verde (16h30), Cineplus Jardim (15h), Espaço Itaú (21h) e Cineplus Campo Largo (18h20).

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